1.Uma História Excelente
2.Bonzinho

3.Sem Fome


 



Sem Fome
por Fabiano Vianna

Na presença de Bernardo, Lívia ficava totalmente sem fome. A emoção e a admiração que nutria lhe tiravam a vontade de comer. Queria apenas contemplá-lo, e enquanto isso a comida ínfima esfriava no prato. Quase sempre os alimentos eram jogados fora. Um verdadeiro desperdício. 
E ele até tentava:
-Pequena, porque não come?
- Não estou afim.
- Você nunca come, ou é só quando está comigo?
- Gosto de comer quando estou sozinha.

Bernardo sabia que quando voltava ao trabalho, Lívia atracava-se a várias guloseimas para compensar. Risólis, coxinhas, pastéis. O problema dela era comer na sua presença. A timidez extrema da pequena tirava-lhe toda a fome, mas não era só isso. Também ficava muda, apenas a imitir uns sons e grunhidos muito particulares.
Em todos os almoços, a mesma cena se repetia. Apenas Bernardo falava, contando histórias e falando sobre o cotidiano da empresa. Lívia, do outro lado da mesa a apreciar. Olhos brilhantes, pés bem juntos virados em direção ao moço.

A pequena se vestia com muito capricho e elegância. Costumava usar sapatinhos baixos com laços de couro e vestidos. Um mais lindo que o outro, e nunca repetia.  Preservava um ar juvenil que deixava Bernardo cada vez mais apaixonado.

Sozinho em casa Bernardo imaginava cenas pornográficas com Lívia. É que a pequena era tão reservada e difícil que era muito excitante a possibilidade de vê-la em posições obscenas. Idealizava-a nua, criando na mente formas e posições diversas.

A Tentativa

Depois de alguns meses, começou a ser mais ousado. Aquela timidez não poderia durar tanto tempo. No telefone:

- Ao invés de almoçar vamos num motel?
- Está louco? Não sou qualquer uma! Aliás, nunca fui num motel.
- Não sabe o que está perdendo. No centro têm uns ótimos.
- Esqueça, comigo não.

Mas ele sempre tentava. Nos almoços mesmo, volte meia entrava nuns assuntos pornográficos. Falava de seu decote, e ela ficava praticamente roxa.

O tempo foi passando e a vontade de Bernardo aumentando.
Nutria a esperança de por trás daquela menina pueril, existisse uma tarada.
E realmente existia.
Quatro meses depois começaram a namorar, e a primeira noite de sexo foi fantástica. Lívia fazia de uma maneira que nunca nenhuma mulher tinha feito.
Passaram a se encontrar várias vezes por semana, quando não era no apartamento de Bernardo, usavam os tais motéis do centro da cidade, para preservar o clima de aventura do namoro.

Porém mesmo depois de tanta intimidade, a timidez da pequena permanecia igual. Era seu jeito natural de ser, nunca mudaria. E Bernardo foi se acostumando.
Lívia era como um gato, bicho que você tem que tentar prognosticar o que sente. Sempre misteriosa, com seus próprios pensamentos, introspectiva.
E insistia na idéia de não comer na frente dele. Não havia o que fazer. Nem mesmo sorvete de baunilha, sua iguaria predileta.

 

O Casamento

E foram levando. A pequena era tão magricela que parecia até que ia quebrar.
Cinco meses depois, casaram. Cerimônia simples, um fim de tarde majestoso. Típico entardecer em Ariadne, quando as nuvens formam desenhos imponentes.

Foram morar em um apartamento na zona norte, muito bonitinho por sinal. Móveis modernos, piso quadriculado na cozinha.


Viveram bem durante muito tempo, fazendo sexo quase todo dia, tal qual dois recém enamorados.
Lívia era tudo o que Bernardo sempre sonhou em relação a uma mulher. Inteligente, pervertida e dócil ao mesmo tempo.


Mas como nem tudo são flores e Bernardo era muito ciumento, um dia aconteceu o inevitável.
Num jantar a dois, na mesa da cozinha optical art, Lívia comeu.
Bernardo num rompante de ódio, atirou a mesa com pratos e comidas para cima, gritando:

-Você está comendo como uma PORCA! Não me ama mais! INGRATA!

Por todos os lados, cacos de pratos e vidro. Bernardo saiu pela porta da sala, falando que nunca mais voltaria. Lívia, agachada num canto e sentada sobre o piso monocromático, chorou.

 

 

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