1.Uma História Excelente
2.Bonzinho

3.Sem Fome

 

 

 



Uma História Excelente
por Fabiano Vianna

Eu esqueci minha ideia sensacional. No momento que o conto surgiu em minha mente, eu estava ocupado degustando pão de queijo numa dessas cafeterias que existem no centro da cidade, e não me preocupei em escrevê-lo. Porém, apenas hoje percebi sua falta. Confiei demais em meu cérebro, que já não funciona tão bem. Mas me resta uma alternativa. Preciso voltar ao mesmo café, e sentar-me na mesa habitual. Fazer tudo da mesma maneira que eu tinha feito uma semana atrás. Talvez algumas palavras ainda estejam por lá, por cima daquelas mesas, ou talvez nas imagens das fotografias de Ariadne nuns quadros pendurados na parede. Fecho a janela, desligo a vitrola e coloco o mesmo casaco.

Na frente do meu prédio, uma senhora passeia com seu pequeno poodle. Nunca sai tão cedo de casa num sábado.
Sento perto da janela, como na semana passada. Sinto um aroma de café no ar, que se mistura com o dos cigarros. Na minha cabeça, um “bang-bang” desordenado. Um casal à minha direita discute a relação numa mesa de canto. Ele, com uma postura relaxada na cadeira, parece não ligar para o que ela fala, e mexe com a colherzinha o resto de açúcar no fundo da xícara. No outro extremo, uma mulher espera seu pedido enquanto lê o jornal O Crepúsculo. Consigo ler na manchete da capa “O último cigarro – Fotonovela inspirada em fatos reais”. De vez em quando, o garçom passa um pano nas mesas vazias e anota os pedidos das pessoas que chegam e saem.

Olhando para a parede verde-musgo à minha esquerda, vejo os quadros de fotografias. Isso talvez tivesse a ver com meu conto esquecido. Talvez alguma fisionomia, algum personagem. Nisso, um senhor obeso com celular pendurado na cintura passa por mim, dirigindo-se ao banheiro. Claro! O banheiro! Meu conto deve estar lá!
Então meu café chega. Como sempre, coloco bastante açúcar. Dois pacotinhos. Dou uma mordida no pão de queijo, e então o senhor gordo sai do banheiro. Deixo o café pela metade mesmo e vou ao banheiro. Dentro, nada muito expressivo. Banheiro de cafeteria parece banheiro de casa. Uma privada, pano molhado sobre a pia, interruptor dourado...
Foi quando, lá de dentro, escuto a voz de uma mulher que conversa num celular, e acho que a conheço. Ao sair do banheiro, não estou mais num café, e sim numa churrascaria. Os grandes ventiladores metálicos pendurados no teto foram substituídos por cabeças de bois e composições com alhos, e não são mais pessoas “cults” que estão sentadas, e sim homens de barbas inacabadas com seus filhos e famílias. Todos famintos e ansiosos pelo prazer do gosto da carne. Percebi que o jazz foi substituído por uma música gauchesca, e o café virou cerveja. A palavra de ordem agora é matar a fome.

De repente, um garçom passa esbarrando em mim, me sujando todo de gordura. Naturalmente, percebi que estou atrapalhando o movimento de garçons que freneticamente andam de um ponto a outro do lugar, oferecendo picanhas, costelas, línguas, pés e corações. Procuro a minha mesa, mas então percebo que eu também mudei. Não sou mais eu mesmo. Meu café e meu moleskine não estão mais ali e eu estou num outro corpo. Eu estou mais forte e com muita raiva. Há um assassino dentro de mim e isso ninguém aqui imagina. Então eu atiro na mulher de cabelos curtos ao lado do cara de gorro. O sangue jorra de seu peito e em seguida eu atiro nele também. Tudo conforme eu havia planejado. Então vou embora, mais tranquilo por um lado, pois não preciso mais lembrar do tal conto esquecido.

 

 

xXx

 


 


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