1.Uma História Excelente
2.Bonzinho
3.Sem Fome



Bonzinho
por Fabz

Depois de ensaiar por muito tempo, tomou coragem e pediu ao marido:
-Me bate ?
-Como assim?
-Me dá uns tapas! Uns tabefes!
-Por quê?
-Tenho vontade, quero que me trate como se fosse sua putinha.
-Tá Louca! Nunca faria isso!
- Ora porque não?
- Porque te amo, Julia! Como bateria na pessoa que amo? Nunca, jamais!
-Você é um banana isso sim!

E saiu esbaforida e desapontada em direção ao banheiro.
Arnaldo acendeu um cigarro, como faz de costume, em momentos tensos.
Ela saiu do banheiro alguns minutos depois, já sem maquiagem. Abraçaram-se.

- O que deu em você amor?
-Nada, Arnaldo. Esquece isso.

Enquanto o rapaz dormia, Julia permaneceu uma boa parte da noite de olhos abertos, apenas refletindo sobre tudo. No outro dia, encontrou-se com sua amiga Claudete numa cafeteria:

-Clau, apenas o que eu queria era que de vez em quando ele entrasse na brincadeira. Mas ele é bonzinho demais sabe?Leva tudo a “ferro e fogo”.
-Entendo guria! Você sabe qual é a minha opinião né ?
-Putz, nem venha novamente com aquela história do Madureira!
-Mas é sério! Ele é louco por você! Basta um telefonema.
-Não posso trair o Arnaldo! Nunca fiz isso!
-Sempre há uma primeira vez! E garanto que o Madureira é o cara que ia entender os seus fetiches. Já me contaram cada história sobre ele...
-Pois, é. Eu conheço várias também. Aff, e ele é tão gostoso...
-Demais! Se eu fosse você não desperdiçava!



Outra Tentativa



Julia foi para casa pensando. Mas ainda estava disposta a tentar mais uma vez com Arnaldo. Uma última chance.
Chegou antes dele e vestiu um espartilho que nunca havia usado.




Chegava até a ficar pequeno, pois engordara uns dois quilos desde então. Os seios saltando pra fora.
Na vitrola, Nancy Sinatra.

Standin in the crowds
Lost out in the street
Loving the chaos
With my heart down at my feet

Taking every step like it's my (very) last
Looking round the corners
Searching through the glass
For a glimpse of you
Eyes of shining blue
All these memories of you come to haunt me
They come to haunt me...


Arnaldo chegou, e ao se deparar com a cena, fez uma expressão de espanto:

-Que trajes são esses? Está parecendo uma mulher de vida-fácil!
-É ? Talvez eu seja mesmo. Vai me pagar quanto ?
-Julia, eu sinto nojo de você! Você está fazendo um papel ridículo! Vou dar um volta, e quando voltar espero que tudo volte ao normal. Quero a Julia com quem eu casei!

E saiu porta afora, mesmo sem vestir o paletó.

Júlia chorou de raiva e de tristeza, mas também não ficou por muito tempo ali. Foi para a rua, vestindo o paletó dele.



Na Rua

Quando Arnaldo voltou, não a encontrando no apartamento, ficou preocupado e desnorteado. Pegou o carro, e foi procurá-la pelas ruas. Passou em todos os bares da região, desesperado.
Entrou em alguns, perguntando informações. Ariadne é uma cidade foda neste tipo de situação. Placas ambíguas, ruas circulares. Um verdadeiro caos, que funciona vinte e quatro horas. Muitos telões, muitos bares. Num deles, Arnaldo entrou, encontrando Madureira.

-Oi Madureira. Faz tempo que está aqui? Por acaso viu a Júlia, minha esposa?
-Não a vi bicho. Faz um mês que não falo com a Júlia. Aconteceu alguma coisa?
-Não seja cínico. Te conheço! Viu ou não viu ?
- Vai querer encrenca cara ? Se eu fosse você não faria isso.
-Não vou perder meu tempo com você. Além do mais, preciso ir. E espero que seja verdade que não tenha a visto. Para o bem de sua saúde.
-Vai se foder!

Doze amigos do “Madura” já estavam prontos para pular encima de Arnaldo, que quando percebeu que estava em desvantagem tratou logo de se mandar.

Foi então, que umas quatro quadras dali, avistou uma garota, cambaleante na rua. Usava um paletó sobre os ombros e um salto tão alto que mal conseguia se equilibrar. Só podia ser a Júlia.  

-Júlia! Sou eu !

Chegando perto, reparou que o nariz da pequena sangrava e estava com a cara toda machucada.

- Meu amor, o que aconteceu com você ?
Júlia parou, bem rente à janela do “Passat” branco de Arnaldo, e disse:

- Oi Arnaldo! Esta noite finalmente encontrei quem me batesse. Agora sou uma mulher realizada.

Entrou no carro, e eles foram o trajeto todo em silêncio. Introspectivos, olhando em direção ao crepúsculo. E no rádio Nat King Cole cantava:

The very thought of you and I forget to do
The little ordinary things that everyone ought to do
I’m living in a kind of daydream
I’m happy as a king
And foolish though it may seem
To me that’s everything

The mere idea of you, the longing here for you
You’ll never know how slow the moments go till I’m near to you
I see your face in every flower
Your eyes in stars above
It’s just the thought of you
The very thought of you, my love...

 

xxFIMxx

 





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